2000

FHC decide tirar Alvares do Ministério da Defesa
Sérgio Lima – 18.dez.99/Folha Imagem![]() |
O ministro da Defesa, Elcio Alvares, ao deixar o Palácio do Planalto em reunião em dezembro |
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Célio Borja e Sydney Sanches são os nomes mais cotados para a pasta |
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Pefelistas pressionam presidente para manter atual ministro |
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Planalto queria reação mais forte de Alvares a acusações |
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Ministro nega possível pedido de demissão |
ELIANE CANTANHÊDE
Diretora da Sucursal de Brasília
O presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu substituir o ministro da Defesa, Elcio Alvares, por um jurista apartidário. É apenas uma questão de tempo.
Os nomes mais cotados são o do ex-ministro da Justiça no governo Collor Célio Borja e o do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Sydney Sanches.
Até ontem à noite, porém, Elcio Alvares e líderes políticos negavam a substituição, enquanto assessores e interlocutores de FHC afirmavam que não havia prazos. As pressões políticas para que o presidente o mantivesse no cargo partiam sobretudo do PFL.
O porta-voz da Presidência, Georges Lamazière, limitou-se a afirmar no início da noite que o ministro continuaria no cargo e que não havia novidades em relação às declarações feitas por FHC pela manhã, em São Paulo.
“Ministro meu, enquanto eu não disser que não é, é ministro. E tem todo o meu apoio”, dissera FHC naquela oportunidade.
Avaliava-se no Planalto que, se dissesse o contrário à noite, já em Brasília, FHC poderia reforçar uma imagem de indeciso que o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL), por exemplo, alardeia. O porta-voz não concedeu, porém, sua tradicional entrevista no final do dia.
Primeiro ministro de uma pasta idealizada antes mesmo da posse de FHC e enfrentou resistências durante cinco anos até ser concretizada, Alvares é alvo de suspeitas e considerado “sem pulso” para comandar as Forças Armadas.
Desde que ele passou a ser citado em reportagens sobre desmandos no seu Estado, o Espírito Santo, FHC aguarda, sem sucesso, que ele responda de forma veemente e convincente. Mas Alvares prefere ficar calado.
“Faltou um soco na mesa, que nunca veio”, disse um ministro, ontem, à Folha. Segundo ele, Elcio não sepultou as denúncias de participação no crime organizado e só depois de obrigado pelo presidente afastou sua assessora Solange Rezende Antunes, citada pela CPI do Narcotráfico, e o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Walter Bräuer, acusado de quebra de hierarquia.
A “gota d’água” foi uma reportagem do último número da revista “IstoÉ”, que circulou no domingo, dizendo que Alvares sabia de uma ameaça de morte contra o delegado capixaba Cláudio Badenes e não a comunicou ao Ministério da Justiça.
Badenes, prêmio nacional de direitos humanos de 1996, apura supostas ligações do ministro com o crime organizado.
O Planalto deixava claro insistentemente, ontem, que o afastamento de Alvares não seria tanto pelas denúncias, consideradas confusas e, em alguns casos, inconsistentes. O problema é a falta de reação, a passividade, do ministro diante delas.
Parlamentarista desde os tempos de universidade, FHC sempre tratou o Ministério da Defesa como indispensável. Demorou a criá-lo, inclusive, para evitar que nascesse frágil. Mas era justamente isso que estava ocorrendo na gestão Alvares.
Com a nova pasta, os três ministérios militares -Aeronáutica, Marinha e Exército- viraram comandos, e seus chefes passaram de ministros a comandantes. Há reações contrárias em especial na Aeronáutica.
Filho e neto de oficiais do Exército, FHC tem algumas certezas sobre o Ministério da Defesa: seu chefe precisa ser um civil, ter autoridade, currículo impecável e honestidade comprovada.
Apesar de ter sido considerado apto para o cargo, Alvares tinha um defeito de origem: era político e tinha sido derrotado nas eleições para o governo do Espírito Santo. Paira a impressão de que FHC usou a pasta para uma acomodação política, mesmo depois que Alvares se desligou do PFL.
Com o surgimento de suspeitas sobre ele e o envolvimento de uma assessora direta nas investigações da CPI do Narcotráfico, sua posição se tornou delicada. Ele arranhou os princípios do currículo impecável e da honestidade comprovada.
Nos últimos dias de 1999, ele era considerado “sob observação” no Planalto. A sorte de Elcio passou a depender dele próprio, que se omitiu no caso de militares que se atracaram com fotógrafos no Forte de Copacabana no Ano Novo e, agora, ficou mudo diante da reportagem da revista.
Em vez de mirar para fora, a opinião pública, Alvares mirou para dentro, as Forças Armadas, para tentar se manter no cargo. Tanto que providenciou já na primeira e na segunda semanas de 2000 almoços com os três comandantes militares. Andrea Matarazzo, secretário de Comunicação, participou do almoço.
O presidente constatou duas tendências no governo, mas não se manifestara a favor de nenhuma delas até a segunda-feira, quando ainda esperava alguma manifestação do ministro sobre as novas denúncias.
Uma das tendências era contra o afastamento de Alvares, para não dar impressão de força para os militares, especialmente os da Aeronáutica, que sistematicamente criam problemas para o governo e poderiam considerar a substituição como uma vitória.
A outra era afastá-lo rapidamente, para ratificar uma “nova fase” de FHC, que tem sido aconselhado pelo seu comitê político a adotar um estilo mais incisivo, para recuperar popularidade.
Conforme a Folha apurou ontem, FHC acabou optando por constrangê-lo a pedir demissão. Algo que, ao longo do dia, o ministro dizia que não iria fazer.
Batalha de Grozni desafia a Rússia
France Presse![]() |
Duas tchetchenas acendem fogo num campo de refugiados na vizinha região da Inguchétia |
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Putin quer tomar capital antes de eleição, mas tchetchenos resistem |
JOÃO CARLOS ASSUMPÇÃO
enviado especial à Tchetchênia
Tomar Grozni, a capital da Tchetchênia, até 26 de março, data das eleições presidenciais, é prioridade absoluta para Vladimir Putin, premiê e presidente em exercício da Rússia, que aparece como favorito para o pleito.
Sem nenhuma expressão política até agosto de 1999, quando se tornou primeiro-ministro, a convite do ex-presidente Boris Ieltsin, Putin goza de muita popularidade entre os russos graças à ofensiva militar desenvolvida por seu governo na região separatista, que teve início em setembro de 99.
Por isso, assim que se tornou presidente interino, no lugar de Ieltsin, que renunciou na véspera do Ano Novo, foi ver as tropas na região e pedir a intensificação dos ataques a Grozni.
Mas, pelo menos de acordo com depoimentos de moradores da capital tchetchena que deixaram a cidade durante o conflito, é possível que o sonho de Putin não se realize, e a Rússia volte a viver trauma semelhante ao de 1996.
Naquele ano, Moscou teve de negociar o fim da guerra, iniciada em 1994 e que matou mais de 40 mil pessoas, depois de ver seu Exército “bloqueado” em Grozni.
Dias piores
Na semana passada, a Folha visitou três cidades na Tchetchênia -Urus Martan, Achkhoi Martan e Goiskoie-, todas dominadas por tropas do Kremlin, e conversou com militares russos, desabrigados tchetchenos e “fugitivos” de Grozni.
Os relatos de quem acompanha a guerra e perdeu tudo, menos a roupa do corpo, indicam que dias piores virão. E, apesar da confiança dos políticos e do alto comando do Exército russo na tomada de Grozni, as baixas serão, segundo estas pessoas, muito maiores do que o anunciado em Moscou.
Igor Kritski, capitão do Exército, havia previsto a morte de 500 de seus comandados no cerco final a Grozni, mas o número pode vir a ser muito maior.
Nos últimos dias, os combates na cidade são literalmente bairro a bairro, rua a rua. A resistência rebelde continua forte. Na sexta-feira, o Kremlin suspendeu os ataques a Grozni, com a justificativa de preservar os civis e respeitar o Natal ortodoxo, celebrado dia 7. No entanto, dois generais que comandavam operações foram substituídos, indicando um possível descontentamento do governo com o andamento da ofensiva, que está durando mais tempo que o previsto.
Os dois lados trocam acusações sobre o uso de armas químicas e informam diferentes números de baixas e conquistas obtidas. Parte da capital vive sob chamas, já que os rebeldes têm usado a estratégia de colocar fogo nas barreiras armadas nos últimos dois meses para confundir os russos.
“Isto não é um país, é um inferno”, disse Irina, 37, fugitiva de Grozni, que vive num campo de refugiados tchetchenos em Urus Martan. “Um dia, quando voltava do supermercado, cheguei e minha casa não existia mais. Mataram meu marido e destruíram tudo, colocaram fogo em tudo o que era nosso. Perdi minha vida em um segundo.”
Mesmo sendo tchetchena e se opondo à ofensiva dos russos, Irina, que não quis ter seu sobrenome divulgado, não os responsabiliza diretamente pela tragédia.
“Os dois lados fazem as piores atrocidades possíveis. Quem matou meu marido não foram os russos, foi um bando de paramilitares (tchetchenos). Um vizinho meu me garantiu. Eles dizem que quem não luta pela causa (formação de uma República islâmica independente da Rússia) não merece viver. E nós éramos contra a causa e contra a guerra.”
Mas Irina diz ser uma exceção. “Não estou do lado dos russos, porque sei que nossos soldados (referindo-se aos rebeldes) são tão canalhas quanto os deles. Quanto mais eles (os russos) atacarem, mais balas vão levar. Quanto mais eles atacam, mais ódio a população (civil) sente deles e mais voluntários se unem às tropas (rebeldes).”
Moscou inicialmente justificou sua ação na Tchetchênia dizendo que combatia terroristas islâmicos (a região tem maioria muçulmana). As guerrilhas seriam responsáveis por atentados na Rússia em 99. Hoje, no entanto, está claro que os russos querem ficar na região. Putin prega a “preservação da integridade territorial”.
Frente a frente
Pelo depoimento tanto de soldados russos quanto de refugiados tchetchenos, cada vez mais os combates vão se tornando homem a homem. “Eles conhecem o território e estão escondidos em pontos estratégicos, não só no centro (de Grozni), mas também nas montanhas da região. Temos sido vítimas de muitas emboscadas”, disse o soldado russo Vladimir Kolesnikov, 21.
Segundo ele, intensificaram-se nos últimos dias os combates em que os oponentes ficam a menos de 250 jardas (equivalentes a 228,6 m) de distância.
“Um amigo nosso (que, ferido, fora levado para Urus Martan antes de ser conduzido para Moscou) disse que em Vedeno (via de acesso para a região das montanhas) as lutas estão piores. Quanto mais perto você fica do inimigo, mais raiva você sente, o ódio se personifica, e a guerra fica mais sangrenta”, afirmou.
“Por isso que eu digo que os americanos foram covardes com os sérvios. Eles só atacavam de longe. Pergunte (para os sérvios) o que eles fariam se encontrassem um americano cara a cara. Bater de longe é fácil. E é por isso que esta guerra é diferente. Podem falar o que quiserem da gente, mas pelo menos nós damos a cara para bater.”
A GUERRA E O PRESIDENTE
São curiosas as declarações de ontem do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a guerra fiscal. Ele apoiou a intenção do governador Mário Covas de reagir à fuga de empresas para Estados que ofereçam redução de impostos e subsídios.
O presidente disse que Covas fez o que “o povo de São Paulo espera dele”. Foi além. Afirmou que, por meio da guerra fiscal, há “pilhagem de indústrias”, que deve ser detida; que essa competição entre Estados beneficia apenas empresários e prejudica os cofres públicos e a população.
Estranho e exasperante é que tal protesto venha do presidente de um governo que pouco se empenhou para levar adiante a reforma tributária. Essa reforma poderia dar cabo de distorções graves tais como a guerra fiscal, o excessivo peso de impostos sobre produção, produtos exportáveis e renda dos mais pobres. Mas apenas após enorme pressão da sociedade o governo decidiu colocar mais empenho na negociação sobre a mudança nos impostos, de qualquer modo hoje ainda muito improvável.
Pior, o governo respaldou a guerra fiscal. Auxiliou a Bahia a vencer o leilão que a Ford realizava entre os Estados brasileiros a fim de obter incentivos fiscais e outros subsídios. É verdade que o fez para atender, por razões políticas, apelos do senador Antonio Carlos Magalhães, que não manda no governo, como se diz tolamente, mas o incomoda deveras.
Curioso também é FHC dizer que Covas deve defender os paulistas. Ora, somos todos brasileiros. Trata-se de assunto do interesse da Federação que o presidente deve defender.
A guerra fiscal é má não porque São Paulo perca indústrias devido aos incentivos, mas pela maneira irracional, casuísta e perdulária com que se concedem tais subsídios. É preciso reduzir a concentração de riqueza em regiões do país, que está diretamente relacionada à desigualdade social, por meio de mais desenvolvimento. Mas é preciso fazê-lo de maneira planejada e com regras, assim como é urgente uma legislação tributária que incremente a eficiência produtiva e a justiça social. Infelizmente, o presidente por ora defende tais princípios quase apenas com palavras.
2009
Campanhas de 2008 são 57% mais caras do que as de 2004
Doações ocultas somam cerca de R$ 259 milhões, o que equivale a 12% do total
Candidatos gastam R$ 2,4 bi; para Weber Abramo, da ONG Transparência Brasil, custo não aumentou, mas cresceu a declaração dele
RUBENS VALENTE
ANA FLOR
DA REPORTAGEM LOCAL
A campanha eleitoral de 2008 em todo o país custou pelo menos R$ 2,43 bilhões, segundo levantamento realizado pela Folha nos registros oficiais do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). As despesas da primeira disputa municipal depois do escândalo do mensalão (em 2005) foram 56,77% maiores do que o total da campanha municipal anterior, de 2004, que custou declarados R$ 1,55 bilhão -já considerada a inflação do período 2004-2008.
A cifra de R$ 2,43 bilhões foi obtida após a exclusão de erros cometidos por pelo menos seis candidatos em suas declarações. Um deles apontou o gasto absurdo de R$ 22 bilhões.
A reportagem também teve de eliminar os repasses realizados às contas dos candidatos pelos comitês financeiros de campanha -sem a exclusão, esses valores seriam contados, equivocadamente, em dobro. Por lei, os comitês estavam autorizados tanto a fazer gastos próprios quanto a efetuar repasses para os candidatos. A reportagem analisou CDs enviados pelo TSE, a pedido, com a íntegra dos dados das eleições.
Entre os partidos, o PMDB, com R$ 422 milhões, encabeçou o ranking em 2008. A liderança não surpreende, já que foi a sigla que mais lançou candidatos, com 2.660 nomes para prefeitos, dos quais elegeu 1.200, incluindo os de cinco capitais, e outros 39.090 candidatos a vereador, dos quais foram eleitos 8.466.
O PSDB apareceu em segundo lugar, com R$ 364 milhões, seguido de perto pelo PT, com R$ 359,2 milhões.
Dinheiro oculto
O levantamento também dimensionou as doações chamadas ocultas. São aquelas realizadas pelos diretórios dos partidos -municipais, estaduais e nacionais- nas contas dos candidatos ou dos comitês financeiros. A maior parte desse dinheiro vem de doadores privados, pessoas físicas e jurídicas que escolheram esse método legal como uma forma de não manter vínculos públicos com os candidatos que apoiavam. A menor parte dos repasses é oriunda do Fundo Partidário.
Em 2008, os partidos investiram por esse caminho R$ 258,9 milhões nas campanhas eleitorais em todo o país – 11,73% do total. A origem desse dinheiro só poderá ser conhecida no último dia de abril próximo, quando os diretórios dos partidos devem entregar suas prestações de conta de 2008.
O PT foi o partido que mais utilizou o expediente, ao repassar R$ 73,9 milhões por meio de seus diversos diretórios. Desse total, R$ 34,8 milhões partiram do Diretório Nacional do partido, em Brasília.
O segundo lugar coube ao PSDB, com R$ 47,2 milhões, seguido pelo DEM, com R$ 40,2 milhões. O Diretório Nacional tucano destinou R$ 1,6 milhão para o candidato Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e R$ 1,88 milhão para o candidato Sebastião Madeira (PSDB-MA), ex-deputado federal que se candidatou a prefeito em Imperatriz (MA).
O principal destino do caixa dos democratas foi a candidatura vitoriosa de Gilberto Kassab e os comitês eleitorais da cidade de São Paulo, num total de R$ 18,2 milhões.
Efeito
“As evidências são as de que as declarações de 2004 é que foram baixas. Não houve um aumento real dos custos da campanha de 2008, mas um aumento das declarações dos custos”, disse o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, o matemático Claudio Weber Abramo. “É um efeito do mensalão. Apesar de toda a cortina de fumaça que se criou em torno do mensalão, acho que os partidos foram mais cuidadosos em 2008.”
O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP), que chefiou o comitê financeiro eleitoral da candidata derrotada à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy (PT), disse que parte dos custos de 2008 deve-se a despesas indiretas, como cessão de imóveis. “São coisas que não implicaram desembolso de dinheiro propriamente dito. Um imóvel emprestado, por exemplo, é preciso ser contabilizado como doação em dinheiro”, disse ele.
Zarattini também faz críticas à atual sistemática de prestação de contas, que prevê contas bancárias para comitês, candidatos e partidos, umas misturando-se às outras. “Quem inventou todo esse sistema foi o tribunal [TSE], isso não é bom para os partidos. Deveria ser simplificada. É interminável essa prestação de contas.”
Por outro lado, ele não concorda que as doações de campanha sejam divulgadas ao tempo das eleições -hoje os dados são liberados ao eleitorado sempre depois da disputa.
Israel está perto de seu objetivo, diz Olmert
Forças israelenses mantêm bombardeios e continuam a avançar pela faixa de Gaza, mas gabinete diverge sobre como atingir metas
Reservistas são enviados ao território, e tropas sitiam principais zonas urbanas; fragmentação do Hamas também dificulta trégua
MARCELO NINIO
ENVIADO ESPECIAL A JERUSALÉM
O premiê de Israel, Ehud Olmert, disse ontem que a ofensiva lançada contra o grupo islâmico Hamas está perto de atingir seus objetivos, mas não deu sinais de que esteja no fim. Ao mesmo tempo, o Exército enviou o primeiro contingente de reservistas à faixa de Gaza desde o início da ação, em mais um indício de que a “terceira fase”, que ampliará a incursão terrestre, pode ser iminente.
As declarações de Olmert ocorrem em meio a tenso contraste entre o elevado número de mortos em Gaza -890, segundo fontes palestinas- e a falta de clareza sobre o que já foi obtido em duas semanas de intensos bombardeios. O gabinete israelense, enquanto isso, permanece dividido sobre a melhor forma de alcançá-los.
Ontem, no 16º dia de guerra, Israel apertou o cerco à Cidade de Gaza, avançando nas margens da principal concentração urbana do território com apoio de maciços bombardeios aéreos e navais. Diante de militantes do Hamas e de outro grupo fundamentalista, o Jihad Islâmico, os soldados israelenses travaram mais de cinco horas de combates. Ao menos 27 extremistas foram mortos, segundo fontes palestinas.
O movimento de tanques e o cerco à cidade de Gaza em duas frentes pode ser o prenúncio de uma nova fase da guerra, em que as tropas israelenses ocuparão as áreas urbanas mais densamente povoadas e os campos de refugiados.
O Exército confirmou o envio de mais soldados. “Ainda não estamos falando de números maciços de reservistas, como os que convocamos, mas de um número limitado para manter nossas operações”, disse a major Avital Leibovitch, porta-voz do Exército. Milhares de reservistas foram convocados no início da ofensiva e esperam a ordem para entrar em ação.
Na reunião do gabinete, Olmert não quis adiantar o próximo estágio, mas deixou claro que a ofensiva continuará.
“Israel está perto dos objetivos que estabeleceu, mas ainda são precisos paciência, determinação e esforço para mudar a realidade de segurança no sul do país”, disse Olmert, que rebateu a pressão internacional por um cessar-fogo.
“Nós jamais aceitamos que alguém decida por nós se podemos atacar aqueles que bombardeiam jardins de infância e jamais aceitaremos no futuro”, disse o premiê. “Nenhuma decisão, presente ou futura, negará nosso direito básico de defender os cidadãos de Israel.” Na sexta, o gabinete israelense rejeitou uma resolução da ONU exigindo cessar-fogo imediato.
Indecisão
Com mais de duas semanas de ataques que destruíram quase toda a infraestrutura de poder do Hamas em Gaza e mataram centenas de militantes, a questão agora é até onde Israel irá para considerar a missão cumprida. Fontes do Exército já manifestam desconforto com a indecisão do governo entre partir para uma solução política ou ampliar a ofensiva.
Os esforços diplomáticos, liderados pelo governo egípcio, por ora ainda não deram resultados concretos. O maior obstáculo é a dificuldade em estabelecer um mecanismo de controle da fronteira de Gaza com o Egito que impeça o contrabando de armas e o rearmamento do Hamas. Outro problema é garantir uma trégua com um grupo cujos líderes estão no exílio ou em bunkers.
Até mesmo por essa fragmentação na liderança do Hamas, o próprio Exército israelense admite que dificilmente o grupo se renderá. Mas afirma que essa desarticulação aumenta a capacidade do Hamas em reagir à ação israelense.
“A liderança do Hamas em Damasco está isolada. Sua liderança em Gaza está paralisada. E o braço militar está evasivo”, disse o chefe de inteligência das Forças Armadas israelenses, Amos Yadlin. Segundo ele, enquanto a cúpula do grupo na Síria defende a continuação da guerra, a liderança em Gaza dá sinais de que quer uma trégua.
Ante a crise humanitária em Gaza e o grande número de civis mortos e feridos, a pressão para que Israel ponha um fim à operação é crescente, e não só na comunidade internacional. “Duas semanas depois do início da guerra em Gaza, só há vagos relatos sobre os sucessos de Israel em danificar a infraestrutura terrorista do Hamas”, observou em editorial o “Haaretz”, o jornal mais respeitado do país. “Por outro lado, acumulam-se as estatísticas sobre os danos causados aos civis.”
Fundos universitários
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Alerta do TCU sobre fundações de apoio a faculdades federais dá chance ao país de avançar nessa área estratégica |
SUCESSIVOS impasses em tentativas de reformar o regime das universidades públicas no Brasil estimularam soluções improvisadas para os problemas, especialmente de gestão, que surgiam. O acúmulo desses reparos parciais resultou num sistema ainda mais heterogêneo, além de ter produzido várias distorções novas.
Para contornar dificuldades advindas do orçamento engessado pela crescente despesa com pessoal, da instabilidade no fluxo de verbas e dos entraves burocrático para a realização de despesas, muitas universidades constituíram fundações de apoio. Esses órgãos, em geral, possuem mais agilidade e flexibilidade para coletar recursos e realizar desembolsos.
As fundações, na maioria dos casos, também serviram como uma fonte de complementação salarial de professores e pesquisadores. Acumularam, entretanto, uma série de problemas, quase todos oriundos da falta de controle sobre sua operação.
Escândalos relacionados ao abuso das fundações ocorridos no ano passado -que acabaram na renúncia de pelo menos dois reitores de universidades federais- estimularam o Tribunal de Contas da União a realizar uma ampla auditoria em fundações de apoio. Uma série de irregularidades foi apontada, da falta de prestação de contas a dispensas de licitação.
O tribunal determinou ao Ministério da Educação que, até o final de maio, estabeleça normas que disciplinem o funcionamento das fundações e corrijam as distorções detectadas. A admoestação é positiva e tem o mérito de tirar da inércia um tema que há anos requer solução.
O que se espera é que o MEC aproveite a oportunidade para modernizar esse importante flanco de gestão das universidades. Seria um erro tentar simplesmente um retorno forçado e horizontal aos modelos envelhecidos de administração estatal. Uma série de iniciativas acadêmicas de reconhecida excelência estaria ameaçada.
É o caso do apoio à pesquisa, setor em que repasses a fundações também foram questionados pelo TCU. Há critérios consagrados de distribuição de verbas para essa finalidade que prescindem dos controles burocráticos tradicionais. Trata-se do financiamento com base no mérito de projetos e programas apresentados -não importa se por um instituto, um pesquisador isolado, uma fundação-, que pode ser controlado por comissões acadêmicas independentes.
Esse é apenas um exemplo de controle que não compromete a agilidade e a flexibilidade da gestão de recursos na área acadêmica. Mas é preciso dar passos adicionais e normatizar de vez as regras para o recebimento de fundos não-estatais pelas universidades públicas.
O Brasil ainda engatinha e improvisa nessa área, fundamental para o avanço do ensino superior e da ciência no país.



