2000
ESTADOS
Encontro com presidente deve ocorrer na próxima terça-feira
Governadores vão a FHC pedir aumento de repasses
Márcio Machado/Folha Imagem![]() |
Governadores durante reunião realizada ontem em Curitiba; eles discutiram a Lei Kandir e a Lei de Responsabilidade Fiscal |
LUCIO VAZ
enviado especial a Curitiba
WAGNER OLIVEIRA
da Agência Folha, em Curitiba
Reunidos ontem em Curitiba (PR), governadores de 20 Estados decidiram ir a Brasília na terça-feira para pressionar o presidente Fernando Henrique Cardoso a rever a Lei Kandir, com o objetivo de aumentar repasses federais aos Estados, e a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Não deverá ser fácil. Ontem mesmo, o ministro Pedro Parente (Casa Civil) descartou qualquer aumento no ressarcimento já acordado com os Estados relativo às perdas com a Lei Kandir (leia texto na página 1-5).
Os governadores querem que os ressarcimentos previstos pela Lei Kandir sejam ampliados de R$ 3,8 bilhões para R$ 4,2 bilhões neste ano e sejam antecipados para 2000 parte dos repasses previstos para o ano de 2001.
A principal alteração proposta para a Lei de Responsabilidade Fiscal é a definição de limites máximos para despesas com pagamento de pessoal para cada um dos Três Poderes e para o Ministério Público.
Os governadores também propõem que os débitos com sentenças judiciais ainda não-pagos, os chamados precatórios, sejam incluídos na renegociação das dívidas dos Estados com a União.
Outra proposta dos governadores foi o equacionamento do déficit previdenciário dos Estados, por meio da capitalização dos fundos estaduais de previdência com recursos de parcelas da dívida paga a União.
Os governadores propõem, ainda, que seja suspensa por dois anos a cobrança de dívidas dos Estados e municípios com o INSS, em virtude de contribuições de servidores não pagas.
Já está agendada uma reunião dos governadores com o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e com líderes dos partidos na terça-feira.
A 5ª Conferência Nacional de Governadores teve a participação de 20 governadores. Itamar Franco (MG), Amazonino Mendes (AM), Ronaldo Lessa (AL), Roseana Sarney (MA), José Bianco (RO) e João Capiberibe (AP) não compareceram.
Os governadores concluíram que precisam se articular para controlar as bancadas estaduais no Congresso e pressionar FHC a atender suas reivindicações.
Esperidião Amin (PPB-SC) chegou a propor uma barganha: os governadores barrariam a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal no Senado até conseguirem seus objetivos. “Boi só sai do mato se tiver mutuca (mosca silvestre)”, justificou.
César Borges (PFL-BA) fez uma alerta: “Está havendo um distanciamento dos governadores de suas bancadas. Nós precisamos acompanhar o que está sendo aprovado no Congresso. Os governadores só sabem o que foi decidido depois que é aprovado”.
José Ignácio Ferreira (PSDB-ES) disse que, se não forem impostas alterações na Lei de Responsabilidade Fiscal, alguns Estados não terão como cumpri-la.
“Do jeito que está, seremos decapitados. Os Estados estão trabalhando no limite e a lei engessa a todos”, disse o governador Jaime Lerner (PFL-PR).
Os governadores foram unânimes na condenação ao dispositivo dessa lei que remete para a Lei de Diretrizes Orçamentárias dos Estados a possibilidade de alteração dos limites máximos para despesas com pagamento de pessoal para cada um dos Poderes.
Também criticaram a exclusão das vantagens individuais no valor a ser fixado para o teto salarial do funcionalismo.
Lei Kandir
O secretário de Fazenda do Rio Grande do Sul, Arno Augustin, fez um relato das negociações sobre e Lei Kandir. Disse que o ministro Pedro Parente aceita criar um fundo e ampliar os ressarcimentos acima de R$ 3,8 bilhões, mas somente a partir de 2001.
Mário Covas (PSDB-SP) afirmou que “a Lei Kandir é viciada desde a origem”. “Como medida econômica, ela é ótima, porque facilita as exportações e a competitividade do país, mas ela traz prejuízo aos Estados.”
Todos aprovaram a transformação do seguro-receita, que faz o ressarcimento das perdas impostas pela Lei Kandir, em fundo com valores fixados com base nas perdas efetivas.
Pelo modelo atual, Estados que ampliaram a arrecadação de ICMS por outras fontes tiveram um ressarcimento menor.
Com o novo modelo, Estados que não têm ressarcimento (Acre, Distrito Federal, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins) receberiam repasses entre R$ 2,4 milhões e R$ 50 milhões.
Lerner procurou descontrair a reunião, mas também lançou farpas. No início, afirmou que a gralha azul, símbolo do Paraná, costuma plantar o pinhão que gera a araucária. “Essa reunião tem a intenção de plantar idéias. Nesse ponto, os tucanos levam vantagem. Não bastassem as vantagens tributárias”, brincou.
FANTASMA EXTREMISTA
Governo com presença da extrema direita toma posse; UE, EUA e Israel anunciam represálias
Áustria começa a enfrentar sanções
France Presse![]() |
O chanceler (premiê) austríaco, Wolfgang Schuessel (à dir.), e a sua vice , Susanna Ries-Passer |
FÁBIO ZANINI
enviado especial a Viena
A comunidade internacional anunciou ontem sanções contra a Áustria, logo após a posse do novo governo do país, com membros da extrema direita.
A secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, expressou “grave preocupação” e anunciou que estava chamando de volta seu embaixador na Áustria. Israel fez o mesmo.
A União Européia (UE), da qual a Áustria faz parte, colocou em vigor medidas de represália anunciadas no início da semana. A principal delas reduz os contatos diplomáticos entre a Áustria e seus 14 parceiros na UE.
O foco do repúdio internacional é a presença no governo do Partido da Liberdade, de extrema direita, que foi empossado ontem em coalizão com o Partido Popular, de centro-direita.
Em breve cerimônia, o presidente austríaco, Thomas Klestil, confirmou a formação do novo gabinete, que terá seis integrantes de cada um dos dois partidos.
Visivelmente contrariado, Klestil disse, no final da tarde, em comunicado em rede nacional de televisão, que não permitirá a quebra de “valores democráticos”.
“Estou deixando claro que a quebra destes princípios trará consequências graves”, afirmou o presidente. Klestil pediu, entretanto, que a população “dê uma chance ao governo”.
Klestil, porém, critica as ameaças contra seu país e afirma que sua soberania deve ser respeitada. Pesquisa divulgada ontem também indica que 79% dos alemães são contrários às sanções, segundo o instituto “Forsa”.
Anteontem, o presidente obrigou o líder do Partido da Liberdade, Joerg Haider, a assinar uma declaração condenando a xenofobia, o anti-semitismo e o racismo.
Haider tornou-se alvo de protestos por suas polêmicas declarações favoráveis ao regime nazista do austríaco Adolf Hitler na Alemanha. Ele chegou a afirmar que o governo de Hitler teve “uma política econômica consistente” e homenageou veteranos da SS, tropa de elite nazista, por sua “bravura e coragem”, desculpando-se depois.
Nas eleições de outubro, seu partido surpreendeu ao receber 27% dos votos, com uma plataforma baseada no ataque a imigrantes, que estariam trazendo violência e desemprego.
“Em várias partes da Europa, sentimentos xenófobos e racistas estão em ascensão, o que é motivo de grave preocupação”, disse a secretária Madeleine Albright.
O governo israelense, além de convocar seu embaixador, proibiu a entrada de Haider no país.
“Israel não pode se manter em silêncio enquanto um partido de extrema direita chega ao poder em um país que teve participação no extermínio de judeus”, disse um comunicado do governo.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em um raro comentário sobre assuntos internos, também expressou preocupação com a situação austríaca.
O novo chanceler (premiê) é Wolfgang Schuessel, do Partido Popular. Haider, que não faz parte do gabinete, garantiu para sua legenda postos-chave, como os Ministérios das Finanças, Justiça, Defesa e Assuntos Sociais. A vice-chanceler também é de seu partido, Susanne Riess-Passer.
Haider voltou à carga ontem, em entrevista a uma TV alemã. “Não tenho intenção de sair por aí me desculpando por todo tipo de coisa”, disse.
Enquanto a posse ocorria, cerca de 5.000 manifestantes entravam em confronto com a polícia diante da sede da Presidência. Por causa das manifestações, o novo gabinete não seguiu a tradição de caminhar da Presidência até a Chancelaria, usando uma passagem subterrânea.
A crise política afetou a Bolsa de Valores de Viena, que registrou queda de 3,5%, atingindo seu menor índice em mais de um ano.
POUSOS E DECOLAGENS
A economia brasileira reúne condições, neste começo de ano, de iniciar o que se convencionou chamar entre os estudiosos da área de ciclo virtuoso. A base comparativa é baixa -o PIB estacionou em 99-, o câmbio por ora não causa sobressaltos, não há sinais de descontrole inflacionário, as metas de rigor fiscal e os ajustes nas contas públicas vão sendo cumpridos. A grande capacidade ociosa e o alto desemprego, fator perverso, dão margem a um crescimento sem pressões pelo lado da demanda por bens e serviços.
Para que essa situação se transforme em crescimento continuado da economia brasileira, no entanto, há que considerar dois fatores.
Resta saber se o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, prenhe de divergências radicais nessa área, logrará implementar uma política econômica capaz de, sem pôr a perder a estabilidade, alimentar o crescimento. Trata-se de uma política que contemple taxa de juros, aumento de exportações, substituição de importações, financiamentos de órgãos oficiais, privatizações, desenvolvimento científico e tecnológico.
Mas há igualmente que levar em conta o cenário externo, especialmente o fator Estados Unidos. A opção do Fed, o banco central do país, parece ter sido por aumentos tênues e graduais em sua taxa de juros. Aposta em um cenário em que a superaquecida economia norte-americana vá-se ajustando lentamente, sem irrupções abruptas. Um “crash” que da Bolsa atingisse rapidamente a atividade econômica, tudo indica, geraria uma cadeia de incertezas na economia mundial que, obviamente, atingiria uma retomada brasileira.
A maneira, suave ou violenta, da aterrissagem da economia norte-americana importa muito ao Brasil, especialmente, e a todo o mundo.
2009
De olho na vice do PT, PMDB tenta unir alas no Congresso
Sarney e Temer querem reduzir conflitos entre caciques para ter a sigla unida em 2010
Partido, que tem seis pastas, elegeu o maior número de prefeitos e agora controla as duas Casas, idealiza indicar nome para chapa de Dilma
Sérgio Lima/Folha Imagem![]() |
O novo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ontem, durante econtro com o presidente Lula no Palácio do Planalto
KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Rivais nos últimos 14 anos, as alas do PMDB da Câmara e do Senado articulam estratégia comum para 2010. Pretendem amenizar divergências para atuarem unidas na sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, a tendência é uma aliança com o PT desde que a sigla fique com a vaga de vice.
O primeiro passo foi dado na segunda, quando José Sarney (AP) e Michel Temer (SP) se elegeram, respectivamente, presidentes do Senado e da Câmara. Naquele dia, Sarney disse a Temer em conversa reservada: “Acho que devemos atuar mais juntos daqui para frente”.
O segundo passo deverá ser dado na próxima semana, quando Sarney receberá em sua casa representantes dos dois grupos. Os presidentes das duas Casas querem reduzir divergências entre caciques das duas alas, especialmente entre o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (BA), e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL).
Geddel trabalhou para eleger o petista Tião Viana (AC) no Senado. E Renan, para vitaminar a candidatura de Aldo Rebelo (PC do B-SP) na Câmara.
A intenção é que a intensidade dos conflitos diminua para não inviabilizar uma posição amplamente majoritária em 2010. Os principais caciques concluíram que, juntos, podem cobrar mais caro pelo apoio de um partido fundamental à governabilidade e com bastante tempo de TV na campanha.
Interessa a Sarney se aproximar do grupo da Câmara, que tem mais poder nas seções estaduais do partido. E interessa a Temer, oposicionista no primeiro mandato de Lula, reforçar laços com Sarney, que já defendeu publicamente a eventual candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
“O resultado de hoje [segunda] mostrou que o PMDB, unido, fica mais forte”, disse Sarney no jantar de comemoração. “Agora é hora de administrar as divergências, de serenar os ânimos”, afirmou Renan, muito cumprimentado na festa de Sarney como idealizador da estratégia que levou o ex-presidente ao comando do Senado.
“Erra quem fala que o PMDB ficará dividido em 2010. Não temos mais motivos para brigar”, disse Henrique Eduardo Alves (RN), líder do PMDB na Câmara e aliado de Temer. “Se houvesse uma convenção hoje, majoritariamente o PMDB caminharia para uma aliança com o PT, inclusive com participação na chapa [vaga de candidato a vice]“, afirmou Geddel.
O ministro da Integração Nacional disse que as articulações para formar palanques estaduais serão importantes para viabilizar a eventual aliança PT-PMDB em 2010. Segundo ele, um arranjo desses reduziria os dissidentes a uma minoria sem força para impedir a coligação com os petistas.
O PMDB possui seis ministérios no governo Lula: Saúde, Integração Nacional, Agricultura, Defesa, Comunicações e Minas e Energia. Os dirigentes do partido dizem que têm mais poder no governo Lula do que tiveram nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando chegaram a ocupar quatro pastas. Em 2008, o PMDB foi o partido que mais elegeu prefeitos.
Com uma máquina partidária nacional, seis ministérios e as presidências da Câmara e do Senado, o partido volta a ter um poder que não detinha desde o governo Sarney (85-90). Novamente há verbas e cargos para acomodar todos os caciques.
Na avaliação dos principais dirigentes, se Lula conduzir bem a gestão da atual crise econômica, poderá fazer de Dilma uma candidata competitiva. O petista já disse que deseja que o PMDB indique o vice do PT -Geddel e Temer são cotados.
Caso a crise enfraqueça Lula, o PMDB poderia tentar uma aliança com a oposição. No caso, com o governador de São Paulo, José Serra, hoje favorito para ser o nome do PSDB.
Equipe de Obama já faz contato com Irã
Houve ao menos quatro encontros na Europa desde setembro entre assessores do presidente dos EUA e delegados de Teerã
Revelação chega em meio à maior distensão entre a Casa Branca e a República Islâmica nos últimos anos, impelida por democrata
Caren Firouz/Reuters![]() |
Iranianas rezam no santuário de Ruhollah Khomeini em Teerã; retorno do mentor da Revolução Islâmica completou 30 anos dia 1º
SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON
Representantes de Barack Obama e do regime iraniano têm mantido contato desde pelo menos setembro do ano passado, quando a candidatura do hoje presidente democrata foi oficializada. Houve ao menos quatro encontros do tipo na Europa, qualificados como de “alto nível”. Embora tanto Washington como Teerã não comentem as reuniões, elas vêm a público no momento de maior distensão entre os dois países nos últimos 30 anos.
Do lado americano participaram entre outros Gary Samore, ex-diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional de Bill Clinton (1993-2001), e William Perry, ex-secretário de Defesa do democrata, ambos a mando do então candidato e depois presidente eleito Obama. Samore está cotado para ser o “czar” antiproliferação de armas nucleares da nova administração.
Do lado iraniano, participaram o representante daquele país na Agência Internacional para a Energia Atômica, Ali Soltanieh, e Samareh-Hashemi, assessor do presidente Mahmoud Ahmadinejad. As reuniões aconteceram em Haia, na Holanda, e em Viena, na Áustria, e foram organizadas pelas Conferências Pugwash, entidade não-governamental pacifista internacional.
A revelação foi feita pelo site da revista “Foreign Policy”. Samore confirmou um encontro, sem dar detalhes de participantes e locação; diante da reação negativa do governo iraniano à publicação, um representante das Conferências Pogwash disse que os encontros não aconteceram a pedido de nenhum dos dois países.
Seja como for, são o mais visível indício até agora de um movimento de aproximação confirmado por Obama em sua primeira entrevista na Casa Branca, dada à emissora de TV Al Arabiya há dez dias, em que disse que os EUA estavam dispostos a “estender a mão da diplomacia” a Teerã se o regime dos aiatolás “abrirem seu punho”.
Novos contatos
Espera-se que novas iniciativas nesse sentido aconteçam neste fim de semana, em reunião sobre segurança em Munique, na Alemanha, apesar da negativa oficial iraniana. Ontem, um representante do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, disse que a relação com os EUA não iria mudar apenas por conta da chegada do político democrata ao poder.
“O aiatolá tem feito esse jogo muito sofisticado, em que permite que várias vozes falem pelo governo do Irã e então ele escolhe quem o ajuda mais naquele momento específico e diz que aquele era o que falava pelo regime, e não os outros”, disse à Folha o especialista Abbas Milani, sobre a estratégia aparentemente contraditória do mais alto líder iraniano (leia entrevista na página A11).
O governo Obama percebeu o jogo. Desde sua posse, tanto o presidente, via seu porta-voz, Robert Gibbs, como a secretária de Estado, Hillary Clinton, vêm repetindo que os EUA querem retomar o diálogo com o país, mas que o interlocutor não será necessariamente o atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad.
A Casa Branca estaria esperando uma derrota do político polêmico nas eleições presidenciais de junho próximo para então lançar oficialmente sua ofensiva diplomática.
Enquanto isso, continuam os trabalhos de bastidores. Está programado para hoje, por exemplo, um briefing sobre o país ao comitê de Relações Exteriores do Senado.
Intitulado “Iran Status Report – Nuclear and Political” (relatório da situação do Irã -nuclear e político), é fechado e classificado como “top secret” pelo comitê. Será dado por, entre outros, Norman Roule, gerente da missão iraniana do gabinete do diretor da Agência de Inteligência Nacional, Alan Pino, oficial de inteligência nacional do Conselho de Inteligência Nacional, e Vann H. Van Diepen, oficial de armas de destruição em massa do Conselho de Inteligência Nacional.
Encastelados
Num sinal de que a impunidade alimentou a empáfia, corregedor da Câmara quer acabar com cassações de deputados
EM DISCURSOS e declarações parlamentares, deputados e senadores se comprazem em apresentar o Congresso como a Casa do Povo. Na prática, porém, se afastam cada vez mais dessa imagem.
As eleições para compor as Mesas das duas Casas deram sequência a um ciclo de reabilitações que renova o desprezo para com a expectativa popular de uma conduta minimamente aceitável da parte de seus representantes. Nada de novo sob o sol do Planalto.
No Senado, desfilam e ostentam poder reconquistado personagens como Renan Calheiros (PMDB-AL) e Fernando Collor (PTB-AL). Na Câmara, ressuscitam outros espectros. Só os incautos acreditavam-nos sepultados por sucessivas CPIs a prometer “ética na política”, ainda que a pantomima por vezes escape do roteiro original e produza resultados de fato.
Dramas históricos e fábulas morais não são o forte da Corregedoria Geral da Câmara, por certo. Tome-se o novo corregedor, deputado Edmar Moreira (DEM). Sua inclinação pela mítica inflexibilidade ética dos cavaleiros andantes parece restrita ao Castelo Monalisa, o simulacro de edificação medieval com 36 suítes que tenta vender por US$ 25 milhões em São João Nepomuceno (MG).
Com a brutalidade de um aríete e muita desfaçatez, Moreira propôs, no seu primeiro dia na função, que a Corregedoria renuncie a corrigir.
O deputado, que responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal sob acusações de crime contra o patrimônio e apropriação indébita previdenciária, tem experiência, por assim dizer, no assunto. Já integrou o Conselho de Ética da Câmara e renunciou à vaga, após derrota de seu relatório inocentando o companheiro José Mentor (PT-SP). Moreira quer que o julgamento de deputados deixe de ser feito na Casa e que a Corregedoria, quando constatar a pertinência de denúncias contra parlamentares, as encaminhe à Justiça.
Para o corregedor, deputados não têm poder de polícia. Seu “espírito de corpo” e a “fraternidade entre os colegas” lhes retirariam a condição de fazer julgamentos isentos sobre quebra de decoro -enfim um momento de veracidade, ainda que a serviço de argumentação cavilosa.
Sua proposta apenas institucionalizaria a omissão parlamentar, desobrigando a Câmara de zelar pela conduta de seus integrantes. Além do mais, equivale a uma nova e voluntária servidão do Legislativo a um Poder externo, o Judiciário.
Manifestações como a de Edmar Moreira decorrem diretamente do festival de absolvições de deputados na esteira do escândalo do mensalão. A impunidade alimentou a empáfia de políticos que, encastelados em Brasília, nem mais fingem respeitar a opinião pública.
FONTE: Folha de São Paulo






















